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setembro amarelo e a importância de entender as doenças psiquiátricas

Setembro Amarelo: séries e filmes que debatem sobre o suicídio

O Setembro Amarelo incentiva as discussões sobre doenças como a depressão e a ansiedade, e ressalta a importância de falar sobre o que sentimos, além de incentivar a busca pela ajuda profissional.

TRIGGER WARNING (TW): este texto fala, entre outras coisas, sobre a série 13 Reasons Why (Os 13 porquês) e discute como o suicídio é apresentado por esse audiovisual. Se esse for um assunto que pode desencadear alguma crise, não prossiga com a leitura.

O suicídio já é a segunda causa de morte de jovens no mundo, e no Brasil, segundo últimos dados divulgados, ocupa a 4ª posição. A depressão é uma doença que atinge mais de 11 milhões de brasileiros, segundo dados da OMS de 2015, colocando o país como o que mais registra casos de depressão na América Latina.

Se você está passando por um momento difícil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) conta com telefones que oferecem auxílio 24 horas, sem custo. Ligue 188 e peça ajuda. Você vai ser acolhido, você vai ser ouvido. Ligue 188 ou converse através do CHAT.

Compartilhar sobre o quão suscetíveis podemos ser, e dividir nossos medos e fraquezas nos afeta profundamente, mas é uma das melhores maneiras de diminuir o fardo das aflições. A campanha do Setembro Amarelo acontece desde 2014, através de uma parceria entre CVV, Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), e visa intensificar a prevenção do suicídio.

 

Setembro Amarelo e a discussão sobre o adoecimento mental: como o audiovisual amplia as discussões

A genética, a poluição e até os agrotóxicos podem ser considerados como catalisadores de transtornos mentais. Além disso, também existem fatores como estresse, mudanças bruscas na rotina e acontecimentos que desestabilizam o ser humano, como a perda de familiares.

Os jovens são mais afetados por estarem ainda com o cérebro em desenvolvimento, o que contribui para que o adoecimento mental possa resultar em atitudes que colocam a vida em risco. 

O sentimento de solidão é um fator que costuma ser comum entre quem tem pensamentos suicidas, e é por isso que é tão importante falar sobre o assunto, pois é dessa forma que é possível estar atento aos problemas do outro, incentivando a busca por ajuda e abrindo caminhos para que quem sofre não se sinta sozinho.

Leia também: Depressão: causas, sintomas, tratamentos, diagnóstico e prevenção

Mas ainda não há uma fórmula certa para falar sobre o assunto, principalmente em se tratando de grandes produções cinematográficas, como a série “Os 13 Porquês” (13 Reasons Why) e filmes como “As Vantagens de Ser Invisível” (The Perks of Being a Wallflower), que provocam discussão sobre a possibilidade de agirem como um gatilho para quem está doente.

 

“As Vantagens de Ser Invisível” e a solidão humana

O filme de 2012 é baseado no livro homônimo, e conduz o espectador ao fundo do poço que é a adolescência para quem frequenta a escola, nos levando a compreender o quão únicas as nossas mentes podem ser. Além disso, expõe as dificuldades que alguém com transtornos mentais enfrenta ao se relacionar e se estabelecer na sociedade. 

E nem é algo muito distante da realidade, uma vez que mais de 30% dos jovens sofrem de algum transtorno mental comum (TMC) que pode levar a depressão. Esses dados de 2016 significam que, em média, 1 em cada 3 jovens no país sofre com o adoecimento emocional em algum nível. 

As maiores possíveis causas desses TMCs ainda é a desigualdade social e a falta de conforto emocional dentro de casa, segundo a mesma pesquisa, que entrevistou mais de 85 mil jovens entre 12 e 17 anos das escolas brasileiras. 

De um lado há o peso da expectativa sobre o futuro, onde há falta de rotina saudável de sono somada ao estresse pela dificuldade de acesso à educação de qualidade, o que causa desequilíbrio hormonal. No outro, a falta de tato na relação familiar, que coloca em risco a saúde mental e emocional do jovem. 

E é nessa mesma luz que “As Vantagens de Ser Invisível” narra uma sequência de acontecimentos que ampliaram os traumas de Charlie, o protagonista.

“Então, esta é a minha vida. E quero que você saiba que sou feliz e triste ao mesmo tempo, e ainda estou tentando entender como posso ser assim.” -  As Vantagens de Ser Invisível

Charlie perdeu duas pessoas importantes, e isso mexeu com ele. A tia, sua pessoa favorita, e o seu melhor amigo, que havia cometido suicídio, eram as únicas pessoas com quem ele conseguia conversar. E foi justamente na ausência desses relacionamentos que o seu gatilho para um TMC transformou-se em uma crise que colocou em risco a própria vida. 

Além de se sentir culpado pelas perdas, Charlie sentia o peso de não conseguir estabelecer uma conexão afetiva sincera com as demais pessoas da sua vida, o que lhe conduziu ao pensamento suicida, resultando em sua internação.

Leia também sobre Prevenção do suicídio: sinais e ações para prevenção.

Só quando Charlie recebe ajuda é que ele começa a organizar os pensamentos em sua mente, entendendo que ele não tem culpa dos traumas aos quais foi submetido. 

O filme acertou no tom da abordagem do adoecimento mental, estimulando a busca por ajuda profissional, e ressaltando a importância da família e dos amigos na criação de uma base de suporte.

 

“Os 13 porquês”: enredo que tem erros e acertos ao falar sobre suicídio

Uma das séries mais impactantes na narrativa da situação é também apontada como um gatilho para quem já possui algum tipo de TMC ou já foi diagnosticado com depressão, e em tempos de Setembro Amarelo a discussão sobre os erros e acertos da série é ainda mais necessária.

Sua capacidade de imersão faz com que qualquer expectador vislumbre o que se passa no mundo de quem passa ou passou por alguma tentativa de tirar a própria vida. Ela também trata do bullying, do quão tóxica pode ser a relação social na escola, do machismo, dos abusos sexuais, da falha dos educadores em entender as angústias dos alunos e discute sobre como nem sempre os pais conseguem reparar o que está acontecendo com seus filhos. 

A série também retrata que o suicídio é complexo, e não é uma atitude que acontece sem que a pessoa dê sinais. Sinais esses que são percebidos no comportamento de Hannah, a protagonista, através de seu afastamento, mudança brusca de corte de cabelo e na sua fala, principalmente ao expor suas angústias ao conselheiro escolar.

O que psicólogos apontam como questão negativa principal é como a produção escolheu explicitar demais, retratando o suicídio da personagem.

Cada episódio de “Os 13 porquês” aponta culpados pelo sofrimento de Hannah, o que se relaciona com algo que os manuais sobre divulgação de suicídio não incentivam: o ato de atribuir culpas e a divulgação de cartas suicidas – a série em si é uma. Outro ponto apontado como negativo é o fato da série mostrar que a busca por ajuda é infrutífera.

A narrativa draga o espectador para o peso dos acontecimentos e dos abusos, e por isso é tão criticada por uns e tão aclamada por outros. Por isso, é recomendado que você assista, se caso achar que pode lhe ajudar, mas jamais sozinho ou sem ter com quem conversar, pois qualquer cena pode ser um gatilho para crises.

Independente do peso da narrativa e das soluções que ela aponta, é necessário lembrar que jamais estamos sozinhos e que há sempre uma voz amiga disposta a ajudar, mesmo que desconhecida. 

É por isso que se fala tanto para que não haja medo ou vergonha de pedir ajuda, e o Centro de Valorização da Vida (CVV) tem no número 188 um atendimento 24h para ouvir quem precisa. 
O serviço é gratuito e conta com atendentes preparados para auxiliar quem está em dificuldade. Também é possível pedir ajuda através do site, clicando AQUI.

A série tem seu papel em incentivar o pensamento crítico sobre as nossas ações enquanto indivíduos, promovendo o debate sobre bullying, abuso sexual, homofobia, transtornos mentais, abuso de bebida na adolescência e dificuldades de relacionamento. O fato de que os Transtornos Mentais Comuns (TMCs) acometem mais de 30% dos jovens em idade escolar, deixa claro a importância de um ambiente escolar saudável. 

Por isso, é importante que a comunidade escolar também esteja atenta ao Cyberbullying, um tipo de bullying que nasce no ambiente físico e é reproduzido no meio digital. É importante saber como ajudar ou onde buscar ajuda, caso você esteja sofrendo com esse tipo de bullying. 

O Setembro Amarelo incentiva que haja um maior entendimento sobre a depressão, ansiedade e outras doenças psiquiátricas. Contribua para essa discussão através das nossas redes sociais, sugerindo assuntos ou melhorias para esse texto.